diários de spartacus
VI
A entrega era assim:
a luz cravada como um espinho no corpo incomodava
a botânica do silêncio.
Era urgente cobrir toda a pele de terra húmida,
ceifá-la de saliva e respigar a boca com destreza.
Depois,
que sarasse a ferida que o espinho causara na evidência das coisas
e que o sangue escurecesse de sombras.
A entrega era fulminante como só na escuridão se aclara um relâmpago:
o coração erguia-se como uma glande eléctrica,
em descargas.
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adenda: carta do exílio para diários de spartacus
venho falar-te do talento
para o nada.
perdoa-me a subtileza,
mas a tua boca é um seio sem maternidade
alguma
possível.
leio-te continuamente
como se as tuas palavras fossem
de uma doença tropical,
onde despertas a consistência
dessa espécie
de
malária.
tens o dom da febre,
sim,
porque o delírio é uma corda suja
onde enforcas qualquer coisa
de virgem.
A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo,
aqui
nenhuma beleza é trabalhada pelo mundo
de forma mais árdua
que o teu medo,
a tua letra é um modo viciado de estranhares
a tua própria mão.
diários,
se os quisesses polir com o tempo que esgotas
no teu corpo,
era vivê-los como um modo claro
de alimento.
era sentares-te de frente para o fogo,
a caneta na breguilha da voz
e incendiares de vez toda a intimidade.
A experiência é uma invenção
.
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[itálicos de herberto helder]