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posso dizer-te
que o rosto tem um pouco de mistério
qualquer
um sinal de nascença,
que desce na intromissão da memória
que tenho do rosto:
quando reconheço o rosto, sempre
é na expressão de um domingo que se demora o lado
bissexto do meu coração
só entendo o tempo como alternância de coisas secretas
em que acrescento os dias:
chamássemos dezembro a cada frase em que morremos
para renascer
os anos são alfabéticos e medidos pelas abreviaturas do desejo
em que pensamos descobrir o amor
e se abro a porta, sempre
é para saber se há palavras que cheguem num dia de segunda
para o tempo que procuro
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conta o que é que se passa entre as águas,
e ela achou que era assim:
água para afogar poemas sujos
água levantada
como mulheres em pés altos,
parindo os filhos em correntes de ar,
de encontro às lágrimas
ó mar salgado, quanto de ti
é o que de nós cai,
e se ergue das águas vulcânicas
que nos enchem de arquipélagos
e chega aos olhos chovendo
*
as águas são como países fluidos
da terra onde crescemos,
nós,
as fronteiras de coral em que
viajam as palavras,
e como gente que esculpimos do falar delas até dizer,
conta o que é se passa entre as águas,
elas desaguam manuscritas
porque as queremos tocar por dentro, as pessoas
arde dizer assim todo o amor.
*
arde o fundo das águas,
porque corremos nelas através dos espelhos e
do outro lado,
conta o que é que se passa entre as águas
há a vida ancorada ao rosto.
porque corremos como delírios?
e a água desenha-se nos dedos mais pequenos
em que tocar o rosto é esta mão inteira,
a tremer.
não há formas simples na água,
pois não?
conta o que é que se passa entre as águas
o desejo é tão liquido como a sede,
um aquário tão possível como o mar.
[imagem de robert parke harrison]
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