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terça-feira, 8 de abril de 2008

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27/novembro/2006
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das leituras transversais
(ou do meu coração ao pescoço)
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Não resistia à força do corpo que não despias e eu sem espaço para dizer,
eu isto, eu e isto
(mais coisa menos coisa)
por entre os amplexos da arritmia que falaria do lado ventrículo

do meu coração,


(A boca fechada, isso, muito fechada
para que eu
sinceramente)

quando o teu beijo no ambulatório dos lábios,
o dilúvio,
era desprevenidamente o imenso
aqueduto
de todas as coisas.


E a tua força a desatar botões, os fechos cerrados da tua roupa a querer rasgar a pele que
eu, eu e mil a mais
em redor do teu desejo,
sofríamos com uma multidão viva encostada
ao pescoço,


(porque tu não detinhas a força acumulada
das barragens - o trânsito dos dias)

E quanto mais,
quanto mais contavas as costuras por cima dos poemas,
mais eu sangrava,
com muito sangue nas avenidas dos silêncios póstumos
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- das palavras escritas.
...
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sábado, 29 de março de 2008

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Tu:
o meu desejo é uma navalha cruzada de fome
enquanto
entrego os dedos, um a um,
à carne que se afia aos lábios

para que te possua
Inclusivamente
em redor das tuas pernas
terás de caminhar no meu colo
erecto

Eu:
queria tocar-te ou
morrer em troca da tua pele,
repentinamente,
em toda a gente

depois entravas pela fome
como esse animal sôfrego de intimidade,
ejaculando dietas de solidão
nesse amor
e
saias?

Tu:
ainda que gritasse por dentro
do teu corpo,
o teu corpo de florestas
orgânicas e tristes,
a boca nascia prematuramente na pergunta,

és apenas o teu desejo e nada mais estará
na permissão da tua ausência
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quinta-feira, 13 de março de 2008

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diários de spartacus



VI


A entrega era assim:
a luz cravada como um espinho no corpo incomodava
a botânica do silêncio.
Era urgente cobrir toda a pele de terra húmida,
ceifá-la de saliva e respigar a boca com destreza.


Depois,
que sarasse a ferida que o espinho causara na evidência das coisas
e que o sangue escurecesse de sombras.
A entrega era fulminante como só na escuridão se aclara um relâmpago:
o coração erguia-se como uma glande eléctrica,
em descargas.

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adenda: carta do exílio para diários de spartacus

venho falar-te do talento
para o nada.
perdoa-me a subtileza,
mas a tua boca é um seio sem maternidade
alguma
possível.

leio-te continuamente
como se as tuas palavras fossem
de uma doença tropical,
onde despertas a consistência
dessa espécie
de
malária.
tens o dom da febre,
sim,
porque o delírio é uma corda suja
onde enforcas qualquer coisa
de virgem.

A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo
,
aqui
nenhuma beleza é trabalhada pelo mundo
de forma mais árdua
que o teu medo,
a tua letra é um modo viciado de estranhares
a tua própria mão.

diários,
se os quisesses polir com o tempo que esgotas
no teu corpo,
era vivê-los como um modo claro
de alimento.
era sentares-te de frente para o fogo,
a caneta na breguilha da voz
e incendiares de vez toda a intimidade.

A experiência é uma invenção

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[itálicos de herberto helder]

quarta-feira, 12 de março de 2008

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É sem medo que chego ao talento do vazio.
Também a pele é doada em vão
à trivialidade da
carne.

Não importa o custo:
no mercado negro do coração, qualquer gesto é
altíssimo.
É sem medo que negoceio a alma num ofício clandestino e
profissional.

Trafico o corpo ao preço da chuva,
a marginalidade do meu sexo
é como um dilúvio que percorre as ruas.

É sem medo que não sei dar-te o meu nome.

De que serve trocarmos os nossos reféns pela violência da paixão?
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Photobucket



[imagem de nan goldin]

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

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diários de Spartacus
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I
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aqui o teu rosto é feito sem o comércio do coração. o que virás a receber neste local é a desapropriação do espaço em redor do teu corpo. vais poder mentir inteiramente e jurar que acreditas na tua beleza. não é urgente decidires aqui se a filiação gestante do teu sexo também abraça um sentimento: de todas as formas, é ao acaso que lanças a orfandade do teu silêncio, porque ninguém fala. pouco importa que na morte se habite tanto, dizem-te, o anonimato é a única dor possível. aqui a identidade é um jogo de impunidades, o desejo é apenas a ressurreição de um nome que se deixou morrer, traído. qualquer corpo servirá como mártir porque aqui é na morte que se habita tanto.
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II
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spartacus,

tocaste esse corpo e magnificaste-o na tua boca até sentir que o seu nome
era um império líquido e soberano. era como se a língua emigrasse
para o lado sagrado e intraduzível da pele
e obedecias ao espasmo.
o sémen acabou por descer pelas mãos em busca de uma flor

que essa flor esteja morta pouco importa.
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III
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tocaste o corpo masculinamente porque é
da natureza das pedras serem masculinas.
essa masculinidade das veias em que consistem as partes baixas,
o corpo
pede-te que sangres como o corpo de uma mulher.
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IV
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o sexo é uma cruz explosiva ao peito da noite, visto de longe.
os corpos amontoam-se em redor de segredos apócrifos
no chão que arde.
As línguas invertem o sentido das marés, dos ventos
e dos trabalhos climáticos da paixão.

Os beijos dão-se às escuras do coração.

Adoram Spartacus.
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terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

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(o que é enigmático é a perda do delírio: entra-se em quê?)
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roland barthes, o exílio do imaginário


posso dizer-te
que o rosto tem um pouco de
mistério

qualquer
um sinal de nascença,
que desce na intromissão da memória
que tenho do rosto:


quando reconheço o rosto, sempre
é na expressão de um domingo que se demora o lado
bissexto do meu coração

só entendo o tempo como alternância de coisas secretas
em que acrescento os dias:

chamássemos dezembro a cada frase em que morremos
para renascer

os anos são alfabéticos e medidos pelas abreviaturas do desejo
em que pensamos descobrir o amor

e se abro a porta, sempre
é para saber se há palavras que cheguem num dia de segunda
para o tempo que procuro
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[imagem de david field,
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

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conta o que é que se passa entre as águas,

e ela achou que era assim:
água para afogar poemas sujos

água levantada
como mulheres em pés altos,
parindo os filhos em correntes de ar,
de encontro às lágrimas

ó mar salgado, quanto de ti
é o que de nós cai,
e se ergue das águas vulcânicas
que nos enchem de arquipélagos
e chega aos olhos chovendo

*

as águas são como países fluidos
da terra onde crescemos,
nós,
as fronteiras de coral em que
viajam as palavras,

e como gente que esculpimos do falar delas até dizer,

conta o que é se passa entre as águas,

elas desaguam manuscritas
porque as queremos tocar por dentro, as pessoas

arde dizer assim todo o amor.


*

arde o fundo das águas,
porque corremos nelas através dos espelhos e
do outro lado,

conta o que é que se passa entre as águas

há a vida ancorada ao rosto.

porque corremos como delírios?

e a água desenha-se nos dedos mais pequenos
em que tocar o rosto é esta mão inteira,
a tremer.

não há formas simples na água,
pois não?

conta o que é que se passa entre as águas

o desejo é tão liquido como a sede,
um aquário tão possível como o mar.

[imagem de robert parke harrison]

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

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eu e mil a mais em redor do teu desejo,
sofríamos como uma multidão viva encostada ao teu pescoço

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(A boca fechada, isso, muito fechada
para que eu)
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[imagem de eugenio recuenco]
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

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acontece que aqui mora alguém. acontece, dizes,
Somos un sueño imposible que busca la noche,
este terceiro andar alto: é a voz que se enche negra da cidade e a cobre de mantos.
acontece que o sopro é uma milonga destas calçadas apertando-se na garganta,
quando o vento irrompe pelas cortinas.
e a luz derrubada no colo como um lugar acesso, pousada na flor do teu sexo.
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uma grafonola insiste no coração das palavras e uma guitarra dedilhando a voz,
Somos en nuestra quimera Doliente y querida Dos hojas que el viento Juntó en el otoño.
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então as bocas juntam-se em segredo
acontecendo nas línguas ao cantar de um dilúvio.

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[itálico, Somos, Chavela Vargas]
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terça-feira, 8 de janeiro de 2008

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[lês-me alto lisboa



ainda a cidade toda escondida por detrás do fogo. estaremos para além desta colina que se intromete de gente desfiando as cortinas do silêncio? estaremos nós do outro lado também a ser vistos pela madrugada? a cidade toda secreta de becos e luzes, um bairro imenso de sangue corrente, o teu corpo,
fará da cidade um rio aberto. poder-se-á então percorrer todas as léguas de uma cidade que se afunda na pele?



dizendo que aqui, nesta cidade,
aconteceu o mar]

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008



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corpoema
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acho que tanta noite é vir assim para conseguir a frase mais densa
do teu corpo. leio-te pouco a pouco de forma absoluta, quando te comparas ao poema. a tua mão cresce como uma hera em redor
das paredes do poema. do poema, a sílaba do amor quando alcanço os parapeitos da tua boca e a escansão do teu sabor. acho que tanta noite é vir assim
para conseguir-te mais dentro do poema. abres-te vorazmente indicativo quando falas de uma gramática. e eu declino-te continuamente sede
e fome na língua. o teu verso cresce na limpidez da saliva que nasce da tua boca ao céu-da-boca da minha língua. a língua aberta.
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acho que tanta noite é vir assim
para conseguir-te mais dentro
do poema.
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domingo, 16 de dezembro de 2007

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[no príncipio
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hás-de surgir alvoraçadamente para que se escreva de súbito a palavra
geografia
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faremos amor geograficamente e em maiúsculas para dentro do teu
corpo
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e o teu corpo abrir-se-á de um atlas pelos dedos
e vais dizer-me:
aqui

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foi o verbo...]
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a intimidade é uma ferida costurada de ambos os lados do rosto para que vejas:
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morremos de tanto tempo
morremos de tantos nós
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domingo, 9 de dezembro de 2007

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the ballad of sexual dependency
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perdoa-me se vivo do desejo em morrer para lá do mar em que todos os corpos se afundam

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[montagem de/the ballad of sexual dependence/nan goldin]
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quinta-feira, 22 de novembro de 2007

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podia surgir do Inverno e descer pelo pescoço até estreitar todo o corpo numa estação. podia surgir no gesto entre duas mãos surripiando um adeus à distância quando tocam aqui. podia surgir contra ou em favor de nós, culpados de abrir fogo pelo rastilho das noites até que um incêndio. podia descer pela luz, abrir os divãs e ensurdecer-se de pele num corpo escuro. podia surgir da saliva, ou de uma língua pura das palavras, quando os sentidos se tocam pela boca.

podia ser um nome

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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

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I para sempre
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insiste no teu nome ou qualquer nome como movimento até que a voz te doa por dentro do grito
insiste por fora da pele até que te cresça umbilicalmente mais calor e o sexo se erga
insiste na semente, insiste profundamente na rosa até que sobreviva um jardim
insiste, insiste no sangue e no inverno como rima até que se invente a palavra amor
para sempre
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