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sexta-feira, 25 de abril de 2008

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o nosso desassossego tem como militância as mãos erguidas ao alto das coisas.
é o esforço de trazê-las ao lado mais impermeável da nossa altura.

A nossa militância é:

empoleirarmo-nos da janela mais alta
que alcançamos do nosso nome para
saltar.


é o grito de lançá-lo ao lado mais profundo do nosso asfalto.

o nosso desassossego é uma mão centígrada que se enviesa
à temperatura ambiente.

que faremos quando tudo arde* e estivermos cá fora
na rua?

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* adaptação do título original de A.Lobo Antunes, Que farei quanto tudo arde?
[imagens de Pagan Poetry, Björk]
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sexta-feira, 18 de abril de 2008

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temos uma arma na mão:
entendemos que todo o corpo será o alvo.


somos muitos ao acaso no terrorismo que é ter dos afectos
o logro da inocência:


porque estamos como criminosos na vida


peter hujar

[peter hujar]


a delinquência mais pura do desejo
é uma remissão completa de vísceras para o lado contrário
do amor




temos uma arma em cada verso:


sabemos que todas as noites
não haverá um só sobrevivente que erga do nosso nome


ainda um poema.
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terça-feira, 8 de abril de 2008

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27/novembro/2006
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das leituras transversais
(ou do meu coração ao pescoço)
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Não resistia à força do corpo que não despias e eu sem espaço para dizer,
eu isto, eu e isto
(mais coisa menos coisa)
por entre os amplexos da arritmia que falaria do lado ventrículo

do meu coração,


(A boca fechada, isso, muito fechada
para que eu
sinceramente)

quando o teu beijo no ambulatório dos lábios,
o dilúvio,
era desprevenidamente o imenso
aqueduto
de todas as coisas.


E a tua força a desatar botões, os fechos cerrados da tua roupa a querer rasgar a pele que
eu, eu e mil a mais
em redor do teu desejo,
sofríamos com uma multidão viva encostada
ao pescoço,


(porque tu não detinhas a força acumulada
das barragens - o trânsito dos dias)

E quanto mais,
quanto mais contavas as costuras por cima dos poemas,
mais eu sangrava,
com muito sangue nas avenidas dos silêncios póstumos
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- das palavras escritas.
...
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segunda-feira, 7 de abril de 2008

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..my satire is my sickness


[philip roth, sabbath's theater]
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[imagem de eugenio recuenco]
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quinta-feira, 3 de abril de 2008

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CIRCUNSCREVER: Para reduzir a infelicidade, o sujeito põe a sua esperança num metódo de controlo que lhe permitiria circunscrever os prazeres que lhe dá a relação de amor: por um lado, guardar esses prazeres, aproveitá-los plenamente, e, por outro lado, colocar num parêntesis sem pensamento as vastas zonas depressivas que separam esse prazeres: "esquecer" o ser amado para lá dos prazeres que proporciona.
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[grace]
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é preciso sofrer ou abandonar:
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[troy]
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conciliar o impossível
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[barbara]
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(o amor não é dialéctico nem reformista)
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[hope]
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[imagens de erwin olaf // texto roland barthes, fragmentos de um discurso amoroso]
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quarta-feira, 2 de abril de 2008

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[ primeira imagem: alison m brady]
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segunda-feira, 24 de março de 2008

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~.
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esqueci-me do espaço para essa margem
em que o meu corpo se atravessa do
teu
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agora,
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tornei impossível o mar.
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[imagem alison m brady]
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quinta-feira, 13 de março de 2008

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diários de spartacus



VI


A entrega era assim:
a luz cravada como um espinho no corpo incomodava
a botânica do silêncio.
Era urgente cobrir toda a pele de terra húmida,
ceifá-la de saliva e respigar a boca com destreza.


Depois,
que sarasse a ferida que o espinho causara na evidência das coisas
e que o sangue escurecesse de sombras.
A entrega era fulminante como só na escuridão se aclara um relâmpago:
o coração erguia-se como uma glande eléctrica,
em descargas.

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adenda: carta do exílio para diários de spartacus

venho falar-te do talento
para o nada.
perdoa-me a subtileza,
mas a tua boca é um seio sem maternidade
alguma
possível.

leio-te continuamente
como se as tuas palavras fossem
de uma doença tropical,
onde despertas a consistência
dessa espécie
de
malária.
tens o dom da febre,
sim,
porque o delírio é uma corda suja
onde enforcas qualquer coisa
de virgem.

A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo
,
aqui
nenhuma beleza é trabalhada pelo mundo
de forma mais árdua
que o teu medo,
a tua letra é um modo viciado de estranhares
a tua própria mão.

diários,
se os quisesses polir com o tempo que esgotas
no teu corpo,
era vivê-los como um modo claro
de alimento.
era sentares-te de frente para o fogo,
a caneta na breguilha da voz
e incendiares de vez toda a intimidade.

A experiência é uma invenção

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[itálicos de herberto helder]

quarta-feira, 12 de março de 2008

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É sem medo que chego ao talento do vazio.
Também a pele é doada em vão
à trivialidade da
carne.

Não importa o custo:
no mercado negro do coração, qualquer gesto é
altíssimo.
É sem medo que negoceio a alma num ofício clandestino e
profissional.

Trafico o corpo ao preço da chuva,
a marginalidade do meu sexo
é como um dilúvio que percorre as ruas.

É sem medo que não sei dar-te o meu nome.

De que serve trocarmos os nossos reféns pela violência da paixão?
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[imagem de nan goldin]

segunda-feira, 10 de março de 2008

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É como se vê no filme:
a pessoa é de uma escuridão bíblica, fervorosa
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trabalha-te o barro e
nasces de uma ideia suja de dedos
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a ficção estende-se ao cadastro da memória:
és o silêncio fotográfico no filme do meu susto
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na verdade, sempre preferiste a invisibilidade da música


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[imagens de troy paiva]

quinta-feira, 6 de março de 2008

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o poema adoenta-se de uma precariedade aflita,
interna-se de veracidade.

a vida por si mesma
basta para que
morra.

usemos da guerra a mão de uma sentença poética:
a mesma mão que fere
será amputada pelo poeta.
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sábado, 1 de março de 2008

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diários de spartacus


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V
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julgado o silêncio, surgiu a culpa.
A culpa era de deus.


*

deus caiu descalço aqui. a ocasião permitia a nudez.
havia muito a especular sobre a perversidade de desejarmos sempre as paixões
mais opacas do corpo.

*

deus era homossexual com as palavras, fodia-lhes as retóricas.
não tínhamos mais nada a acrescentar.



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[imagens de philip-lorca dicorcia, conhecido no corpo visível]








quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

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o teu perfil constrói-se de forma
despropositada
acontece

como a fome

tudo é enorme,
pesa

a tua boca
balança e cai na mesa
como uma fruta,
cortada

serve-se fria

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[imagem de helmut newton]
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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

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diários de Spartacus
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I
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aqui o teu rosto é feito sem o comércio do coração. o que virás a receber neste local é a desapropriação do espaço em redor do teu corpo. vais poder mentir inteiramente e jurar que acreditas na tua beleza. não é urgente decidires aqui se a filiação gestante do teu sexo também abraça um sentimento: de todas as formas, é ao acaso que lanças a orfandade do teu silêncio, porque ninguém fala. pouco importa que na morte se habite tanto, dizem-te, o anonimato é a única dor possível. aqui a identidade é um jogo de impunidades, o desejo é apenas a ressurreição de um nome que se deixou morrer, traído. qualquer corpo servirá como mártir porque aqui é na morte que se habita tanto.
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II
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spartacus,

tocaste esse corpo e magnificaste-o na tua boca até sentir que o seu nome
era um império líquido e soberano. era como se a língua emigrasse
para o lado sagrado e intraduzível da pele
e obedecias ao espasmo.
o sémen acabou por descer pelas mãos em busca de uma flor

que essa flor esteja morta pouco importa.
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III
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tocaste o corpo masculinamente porque é
da natureza das pedras serem masculinas.
essa masculinidade das veias em que consistem as partes baixas,
o corpo
pede-te que sangres como o corpo de uma mulher.
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IV
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o sexo é uma cruz explosiva ao peito da noite, visto de longe.
os corpos amontoam-se em redor de segredos apócrifos
no chão que arde.
As línguas invertem o sentido das marés, dos ventos
e dos trabalhos climáticos da paixão.

Os beijos dão-se às escuras do coração.

Adoram Spartacus.
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

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Poefacto:
a exuberante actividade da "confabulação fonética" ou "a linguagem dos pássaros" *
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que a linguagem dos pássaros seja perceptível
quando se soma os dois lados do coração
e o que se escute pelas partes do todo seja maior
do que o sangue a esquecer



que cheguem os pássaros na migração
poefacta
e concisa das palavras
quando se fala de amor

nos termos da vida

andorinha é uma poética como outra qualquer
quando nos pomos a dizer

há que marcar com a primavera
uma hora a mais na nossa intimidade

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* apropriação do título original de Juan Luis Martinez,
observaciones relacionadas con la exuberante actividad da la "confabulacion fonetica" o "lenguaje de los pajaros"
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

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conta o que é que se passa entre as águas,

e ela achou que era assim:
água para afogar poemas sujos

água levantada
como mulheres em pés altos,
parindo os filhos em correntes de ar,
de encontro às lágrimas

ó mar salgado, quanto de ti
é o que de nós cai,
e se ergue das águas vulcânicas
que nos enchem de arquipélagos
e chega aos olhos chovendo

*

as águas são como países fluidos
da terra onde crescemos,
nós,
as fronteiras de coral em que
viajam as palavras,

e como gente que esculpimos do falar delas até dizer,

conta o que é se passa entre as águas,

elas desaguam manuscritas
porque as queremos tocar por dentro, as pessoas

arde dizer assim todo o amor.


*

arde o fundo das águas,
porque corremos nelas através dos espelhos e
do outro lado,

conta o que é que se passa entre as águas

há a vida ancorada ao rosto.

porque corremos como delírios?

e a água desenha-se nos dedos mais pequenos
em que tocar o rosto é esta mão inteira,
a tremer.

não há formas simples na água,
pois não?

conta o que é que se passa entre as águas

o desejo é tão liquido como a sede,
um aquário tão possível como o mar.

[imagem de robert parke harrison]

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2008





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E agora isto,
um envelope aberto a sair da boca
como se a carta chegasse de um lugar anónimo.

E da devolução, dizia:

As palavras seladas de lacre e cuspo,
eu devolvo-as como a fome.
Esta carta que é uma voz desfeita no papel,
da cor da língua, apertando a folha,
eu devolvo-a como a carne.
O cio da página em branco atrai o calcário das mãos e
eu devolvo-lhe as águas.



como se a carta chegasse de um lugar anónimo e
o vómito circulasse ao contrário do sangue,

eu devolvo o poema



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[imagens: naufragos//eugenio recuendo]
mais imagens de eugenio recuendo em silent short movies




terça-feira, 29 de janeiro de 2008

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o que é irreparável é que a roupa caia do inverno como dos dedos, quando despir acontece assim: irrespirável, quando os poros raiam da chuva um brilho a orvalhar a nudez. Para isso, as palavras inventam-se como se conjugam as estacões: imprevisíveis. é como contrair os músculos de sangue: a carne enrubescida pelo frio pesa em dias assim, irreconciliáveis com a pele.
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* fotograma nocturno


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terça-feira, 22 de janeiro de 2008


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a mão direita sobre o coração,
esquerdo.
o calor do homem deitado na pleura da cama, dividida,
aberta nos dois lados da cabeceira,
como uma boca que respira.
a cama rasgada ao centro, fetal,
como o primeiro gesto que abraça o coração, depois do choro.
o quarto que é um umbigo onde o tempo foi concebido assim,
sobre o leite derramado.
primordial, essa imagem que assalta o crânio na lenta dilatação da luz:

egografia .

a mão direita sobre o coração,
esquecido.
outro homem que tem um livro no peito, agora,
a fazer-se sangue;
a primeira frase
[hoje venho dizer-te que morreste e velo o teu corpo no meu leito]
dentro da memória,
a fazer-se carne.
é irreparável a violação da pele numa frase reescrita pelo sono:
tornada luminosa e fictícia.
a outra mão? esquerda,
cobre o sexo em que a cama húmida se desdobra como um manto.
a inquietude espessa que é um assombro de intimidade
quieta e irrecusável no seu colo.
a cama alarga-se para que, quem está,
possa entrar devagar, sem o prurido do medo.
e agora? as mãos alinham-se assim,
em dois?
os corpos colidem, infectados pelo afecto sibilante das línguas.
tocam-se à justa medida de um segredo:
as mãos direitas sobre os corações, esquerdos,
esquecidos.
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itálico de mário cesariny, do capítulo da devolução
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terça-feira, 15 de janeiro de 2008

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passa uma gaivota e apaga o sol
ela diz,
mar-azia do ventre contraído na areia como túmulo,
pó de arroz e sal no rosto repetido na espuma,
há amar e amar sem haver um barco içado na boca que se navegue.
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Ela diz, espelho,
vitrina de algas movendo o tempo ao longo da costa,
as costas ao longo do tempo
e o corpo à saudade do mar,
[mar é morto]
das mãos escavando o sexo aquático
dos sonhos.

passa uma gaivota e apaga o sol,
ela sente,
mulher de linho que enrola as ondas num vestido dourado,
[r]astro de sémen,
semeando uma âncora na fragilidade dos seus seios meninos,
seios de mel mãe,
regurgitando os seixos do amor.
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Ela descalça,
os pés alvoraçados,
aves lançadas de um vôo surgindo na praia
como fragatas ao romper da manhã.

passa uma gaivota e apaga o sol,
ela diz,
e cai.
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