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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

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Pois, tu sabias. Sempre foi como tu sabias. Havia esse espaco, a distância entre o nascimento e a morte do que ocupas, uma terra plana. E eu ali, com a mão a pôr-se vermelha e quieta no lado estreito da minha sombra, num dia qualquer que termina. Tu sabias. Dezembro era um país habitado de muitos meses e os dias tão escuros como os nossos erros, a faltar-nos mais um ano. Depois as horas. Antes do tempo. Tu sabias.
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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

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não precisas de um sinónimo porque as palavras são caras na despesa do coração. ou antes, se te explico, agarro um cigarro com a doçura da noite presa à boca e gasto todos os livros. nunca expliquei coisa alguma sem ser nos livros ou no avesso da história dos teus braços.
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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

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chega-te para lá ou
que me doem as noites em que os teus braços
se ausentam e
as tuas pernas se esquivam à portagem
do amor
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aqui é o meu sono
e a minha sede
a cabeceira


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quinta-feira, 13 de março de 2008

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diários de spartacus



VI


A entrega era assim:
a luz cravada como um espinho no corpo incomodava
a botânica do silêncio.
Era urgente cobrir toda a pele de terra húmida,
ceifá-la de saliva e respigar a boca com destreza.


Depois,
que sarasse a ferida que o espinho causara na evidência das coisas
e que o sangue escurecesse de sombras.
A entrega era fulminante como só na escuridão se aclara um relâmpago:
o coração erguia-se como uma glande eléctrica,
em descargas.

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adenda: carta do exílio para diários de spartacus

venho falar-te do talento
para o nada.
perdoa-me a subtileza,
mas a tua boca é um seio sem maternidade
alguma
possível.

leio-te continuamente
como se as tuas palavras fossem
de uma doença tropical,
onde despertas a consistência
dessa espécie
de
malária.
tens o dom da febre,
sim,
porque o delírio é uma corda suja
onde enforcas qualquer coisa
de virgem.

A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo
,
aqui
nenhuma beleza é trabalhada pelo mundo
de forma mais árdua
que o teu medo,
a tua letra é um modo viciado de estranhares
a tua própria mão.

diários,
se os quisesses polir com o tempo que esgotas
no teu corpo,
era vivê-los como um modo claro
de alimento.
era sentares-te de frente para o fogo,
a caneta na breguilha da voz
e incendiares de vez toda a intimidade.

A experiência é uma invenção

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[itálicos de herberto helder]

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008





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E agora isto,
um envelope aberto a sair da boca
como se a carta chegasse de um lugar anónimo.

E da devolução, dizia:

As palavras seladas de lacre e cuspo,
eu devolvo-as como a fome.
Esta carta que é uma voz desfeita no papel,
da cor da língua, apertando a folha,
eu devolvo-a como a carne.
O cio da página em branco atrai o calcário das mãos e
eu devolvo-lhe as águas.



como se a carta chegasse de um lugar anónimo e
o vómito circulasse ao contrário do sangue,

eu devolvo o poema



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[imagens: naufragos//eugenio recuendo]
mais imagens de eugenio recuendo em silent short movies




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

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a Casa
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* dedicado à alice
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esta casa respira de ti porque é, nitidamente, um amplexo. como hei-de explicar-te? imagina que vês o avesso do coração ladeado de espaço. espera. não, imagina que és o ventre que procria, mas de fora.
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observa, esta cama em que guardas o teu sono alinhavado no centro do quarto. para que chegues ao centro do quarto é preciso que acendas a luz [que a luz CAIA] e percorras a distância exacta que vai da tua nudez ao que a luz acende no centro do quarto: a imobilidade. A cama CAÍDA.
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ou ainda, repara: para que as fotografias sejam verídicas, isto é, guardadas em cima de coisas quietas que CAEM [como das cómodas, dos espelhos, das mesas, do chão ou dos lençóis podem também CAIR as coisas] é necessário que as olhes ou as toques, porque o teu corpo aqui [há muito tempo que] desfragmenta a legitimidade da memória e faz CAIR.
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é assim, como se das tuas mãos fosses moldando a impressão de teres nascido como dispões a mobília: de um modo umbilical. isto é, as mãos ligam-te às coisas porque é a tua presença aí, quando as coisas caem, que dá sentido às coisas caírem PARA TI.
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[fotos de francesca woodman]
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domingo, 27 de janeiro de 2008

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para a Marta
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[há uma mulher solta pela imaginação do corpo, desenhando as imagens que por dentro se tornam realmente sérias, assim, fotográficas]

marta, uma mulher solta por dentro da imaginação espessa e ocupada de retóricas,
quem és? pessoalmente disposta ao vento e lírica, atravessada no poema
como Homem?
marta, corrente como um órgão que trabalha fundo a circulação dos espaços,
faz-se pela pele o corpo que do avesso dilata tudo.
É interior, marta, um vestíbulo por dentro da alma, as roupas frias e desabotoadas
da nudez inteira, que só de dentro acontece.

[há uma mulher solta pela imaginação do corpo, reescrevendo as falas que por dentro se tornam realmente sérias, assim, ____________]


quisesses percorrer a distância que da cabeça aos pés é como um local violentado
pelas coisas da gravidade,
quisesses, marta, encerrada num cabelo para sempre a queda do meu silêncio.
poderias deslumbrar então uma pessoa inteira, reinventada de cal? sim, marta,
ser gente é ser assim as paredes abrigadas por dentro: as tuas mãos.
as tuas mãos, verdes e belas, marta, como raízes que ao nascer por fora
erguem de árvores a minha altura.
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

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Mas do fundo da casa íntima
aproximava-se uma lanterna:
uma lanterna que os troncos
riscavam
e às vezes anulavam,
uma lanterna de papel,
que tinha a forma dos tambores e
a cor da Lua.
Trazia-a um homem alto.
Não lhe vi o rosto,
porque me cegava a luz.
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O jardim dos caminhos que se bifurcam
Jorge Luis Borges
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à meia-luz, no sono rarefeito deste licor, escrevo-te de cigarro nos dedos, atropelando as páginas embriagadas. é cirúrgico o amor que se instala por dentro dos lençóis, toda a cama a céu aberto como um peito. adormeceste assim, insinuando-te como uma boca junto das minhas palavras mais fechadas. não sei se esta febre é rasgada dos lábios que se colam à narrativa do teu corpo ou se bebo se não com todo o medo. acendo outro cigarro porque a manhã ainda tarda neste cinzeiro antigo. Fumo muito quando dormes assim, como um incêndio carpindo as faúlhas do tempo.
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exílios

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